FERNANDO PRESTES 2001-2018
10 anos de Jardim Luchetti : o fim do medo e o êxodo para a terra firme

Publicado em 15/12/2018 as 12h

Por José Saul Martins

Na semana anterior havia chovido bastante em  Fernando Prestes e região, principalmente na micro bacia do Rio Mendes, desde sua cabeceira, no município vizinho de Cândido Rodrigues.  Aquele sábado, dia 27 de janeiro de 2007 trazia um céu carrancudo desde a manhã, mas foi a partir das 13h que escureceu mesmo, até acionando algumas luminárias das ruas. Prenúncio de muita chuva.

 

Sem raios e trovões a chuvarada começou por volta das 13h30. Uma chuva forte e cadenciada que foi pareando com os minutos e horas e consequentemente deixando a população ribeirinha de “orelha em pé”.

 

Como em muitas cidades, o povoamento começava às margens dos rios e córregos facilitando a captação de água para o consumo dos desbravadores e dos animais. Em Fernando Prestes não podia ser diferente.

 

Já passava das 15h e a chuva ainda era forte apesar de ter diminuído o tom. A água borbulhava Rio Mendes abaixo trazendo consigo pedaços de madeiras das cercas, árvores e arbustos das plantações.  O povo sob os guarda-chuvas já estava sobre a ponte como que num ritual vendo a enchente como em todos os verões.  O que estava assustando era o nível do rio que subia sem parar fazendo que os curiosos recuassem passo a passo, até as primeiras golfadas passarem por cima da ponte.  Rapidamente a cidade foi dividida e de longe se avistava a água subindo sem piedade.

 

As primeiras notícias do lado ocidental davam conta que a água já inundava a Vila Pedregal. Um local pobre de casas com poucas estruturas. O pavor tomou conta dos moradores quando uma das casas foi engolida pela água da enchente.

 

A Vila Pedregal foi construída sobre o leito antigo da Estrada de Ferro Araraquara que estava desativada desde a década de 1950. Em meados da década de 1970 o prefeito da época cedeu alguns terrenos a algumas famílias, outras e outras e, logo o curto trecho foi preenchido por várias casas. Cresceu tanto que foi aberta uma rua perpendicular que partia do aterro principal e rumava pelas bandas do rio. A casa que caiu estava na rua Osvaldo Monteiro, homenagem ao primeiro morador daquela via.

 

Os minutos passavam e água continuava a subir e levava consigo tudo que encontrava pela frente. Os estragos na parte central da cidade eram incalculáveis.  Escola, rodoviária, casas, estabelecimentos comerciais, famílias e famílias desabrigadas.

 

Na Vila Pedregal era uma correria de veículos que carregavam as mudanças das casas. O prefeito da época Bento Luchetti Junior estava no lado do rio da localização da vila e acompanhou de perto a angústia das famílias, com suas crianças observando os pais no desespero. Fugiam dali levando o que não estava encharcado pela água barrenta.

 

Assim que o nível da enchente estabilizou e lentamente começou a baixar, as notícias ruins foram propagadas sobre os estragos desde as pontes na zona rural até a cidade. No entanto o mais lamentável foi a morte de “seu Chico” o lavrador João Francisco da Luz de 63 anos. “Seu Chico” estava nas imediações da rodoviária quando a enchente o surpreendeu não tendo tempo para fugir da morte.

 

Na quarta-feira seguinte a calamidade que abateu a cidade, o prefeito Bento Luchetti Júnior munido de um calhamaço de documentos ilustrando os estragos partiu sozinho para Brasília. Antes deixou todos os funcionários públicos municipais de prontidão para ajudar as famílias atingidas pela enchente.

 

Em Brasília peregrinou por vários ministérios e conseguiu voltar para Fernando Prestes com a certeza de que aquilo não iria mais acontecer em sua cidade. Sua prioridade era conseguir um novo local para a população da Vila Pedregal morar e viver em paz saindo daquela malfadada área de risco.

 

O fim das vilas Pedregal e Gaúchos

 

A Vila dos Gaúchos era um pequeno aglomerado com aproximadamente 10 casas, também localizado em área de risco as margens do Córrego do Jacinto, sem coleta de esgoto, asfalto e guias e sarjetas. O local foi povoando principalmente por migrantes sulistas, motivo da denominação, em meados da década de 1980.

 

As vilas Pedregal e Gaúchos eram habitadas por famílias de baixa renda, a maioria trabalhadores rurais que atuavam e atuam nas lavouras de Fernando Prestes e região.

 

Em Brasília, durante as buscas por recursos, o prefeito Junior Luchetti fez diversos contatos políticos em vários ministérios. No Ministério da Integração Nacional, via Secretaria de Proteção e Defesa Civil conseguiu verba para construção de 74 casas que foram doadas sem custo algum a todos os moradores da Vila Pedregal. O novo local foi adquirido pela prefeitura municipal e além das casas, também foi dotado com toda a infraestrutura  como água encanada, coleta de esgoto, energia elétrica, iluminação pública, guias, sarjetas e asfalto. Detalhe: os imóveis foram devidamente escriturados e registrados em cartório. Na Vila Pedregal os moradores não tinham posse legal de seus imóveis e, portanto com pífio valor comercial. A partir de dezembro de 2008, há 10 anos, deixava de existir a Vila Pedregal e nascia o Jardim Luchetti.

 

Edval Calamari, hoje com 40 anos foi um dos moradores que saiu da antiga vila as margens do Rio Mendes para o novo bairro. Casado com Rita com quem tem quatro filhos, disse que ter sua casa própria traz uma segurança muito grande para sua família. “Aqui vivemos em conforto e acima de tudo temos paz” falou Calamari.

 

O aposentado Inácio José Santana, “seu Lagoa”, de 66 anos morava na Rua Oswaldo Monteiro na Vila Pedregal com a esposa e dois filhos. “Além da chuva e o medo das enchentes, na época do calor tinha muito mosquitos que picavam a gente. Foi uma benção esse lugar que viemos morar” disse seu Lagoa. Fez questão de mostrar à reportagem sua parreira de uvas bem a frente de sua casa. “Lá a gente até plantava alguma coisinha, mas não sabia se ia ter colheita” concluiu o aposentado.

 

Uma grande conquista para Fernando Prestes e gigante para aquela população que morava na área de risco da Vila Pedregal. Mas algo, que completaria o maior projeto urbano de Fernando Prestes, ainda estava por vir. Junior Luchetti batia na tecla de zerar as habitações precárias na cidade. O que fazer então com a Vila dos Gaúchos? As 74 casas do Ministério da Integração Nacional abrigaria por direito apenas os habitantes da Vila Pedregal e não comportaria outra situação.

 

O prefeito afinou seus contatos políticos e intensificou suas idas à Brasília. Enfim, ainda em 2007 Junior Luchetti anunciava a liberação pelo Ministério das Cidades de recursos para a construção de mais 20 moradias, que acomodaria famílias de baixa renda. Com isso atendeu todas as famílias da Vila dos Gaúchos. Foi um importante projeto de desfavelamento não apenas para Fernando Prestes, mas serviu de exemplo para outras cidades do Estado de São Paulo. Todas as 94 moradias não tiveram custo algum às famílias.

 

Hoje, Bento Luchetti Junior que faz seu terceiro mandato como prefeito do município de Fernando Prestes, faz uma reflexão sobre essa façanha de 2008. “Demos um lar decente às 94 famílias do nosso município. Apesar de ser algo concreto pela própria existência do bairro, nós conseguimos alentar o subjetivo e abstrato desses homens, mulheres e crianças: o adeus ao medo da área de risco para a segurança da terra firme” concluiu Junior.

 

Link com notícias da época da enchente

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2901200708.htm

 

https://noticias.uol.com.br/uolnews/brasil/2007/01/30/ult2492u354.jhtm

 

https://pt.climate-data.org/location/287279/